Casos 2014

23/04/2014
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Projeto Inovação e Sustentabilidade nas Cadeias Globais de Valor (ICV Global) selecionou 10 micro, pequenas e médias empresas para formação intensiva em sustentabilidade visando ao posicionamento estratégico de seus negócios no mercado internacional.

Confira abaixo a relação de casos e saiba mais sobre eles.

 

Atina | Brasil Ozônio | CBPAK | Coopnatural |Fazenda Retiro Santo Antônio |
Kapeh |
Poli Óleos | Safe Trace | Sanex | RedeResíduo

 

Atina

Relíquia da Mata Atlântica

Exploração sustentável da candeia pode abrir portas no mercado global

 

          O Brasil é o único produtor do Alfa-Bisabolol, óleo originário da candeia, árvore nativa da Mata Atlântica, com propriedades antiinflamatórias, e portanto de grande interesse para a indústria farmacêutica e de cosméticos. E a Atina é a única fabricante do produto extraído da planta com autorização emitida pelo CGEN (Conselho de Gestão do Patrimônio Genético) e critérios socioambientais do selo FSC (Forest Stewardship Council). Também possui a chancela da certificação orgânica Ecocert.

          Assim, a empresa oferece manejo sustentável e rastreabilidade total da cadeia de matéria-prima, além do respeito às normas de acesso à biodiversidade brasileira e repartição de benefícios com fornecedores. Em um mercado conhecido pela ausência de regulamentação e corte indiscriminado da candeia, isso não é pouco.

          Abrir as portas do mercado exportador significa traduzir esse esforço em argumento de venda, em meio a um histórico de competidores mais preocupados com o lucro do que com a proteção da floresta nativa, e de consumidores que desconhecem as particularidades da cadeia produtiva envolvendo a planta.

          A concorrência com quem desmata marca a história da empresa desde que foi fundada, em 2004, com o intuito de buscar novos ativos naturais para atender a demanda do mercado por produtos inovadores e, ao mesmo tempo, garantir fontes sustentáveis de matéria-prima. A candeia é encontrada no Sudeste brasileiro, principalmente em Minas Gerais. O processo de transformação do vegetal em óleo, no entanto, exige o corte total da árvore, que demora cerca de 15 anos para voltar a crescer (daí a necessidade de manejo). E o rendimento é baixo: de 1 tonelada de madeira se extrai 100 kg de óleo essencial, dos quais se destila 70 kg de Bisabolol.       

          Por mais de 30 anos, a exploração da candeia floresceu sem controle, e por um preço muito baixo, inclusive dentro de parques estaduais em Minas Gerais. Até que, por volta de 2000, um relatório internacional comprovou: o estoque da planta estava sendo consumido mais rapidamente do que a sua reposição, o monitoramento era insuficiente e o mercado monopolizado por distribuidoras estrangeiras, que regulavam o preço. Foram estabelecidas etapas de regulamentação da exploração e um plano de manejo sustentável para ser seguido por toda a cadeia produtiva. Apesar disso, boa parte das fabricantes do óleo ainda não segue as normas.

          Em contraste, a Atina seguiu o caminho das normas socioambientais. A empresa tem uma fábrica no município mineiro de Pouso Alegre e 324 hectares de floresta sob manejo sustentado em Carrancas, nas proximidades. Além disso, possui laboratórios de microbiologia que garantem a pureza do produto em um mercado que não costuma apresentar padrão de qualidade.

          São características que se pretende reforçar para os clientes internacionais que hoje compram cerca de 100 toneladas do óleo por ano. O Bisabolol está na mão de distribuidoras internacionais que o repassam para as grandes fabricantes de cosméticos e de medicamentos. "Nossa dificuldade é mostrar que um óleo derivado de uma árvore nativa não é uma commodity de baixo valor agregado", diz Eduardo Roxo, sócio fundador da empresa.

Cristina Saiani, também sócia fundadora, acrescenta que este foi um legado importante das oficinas do projeto ICV Global: "A oportunidade está em provar que, ao contrário dos concorrentes, temos tecnologia para trabalhar com eficácia e avaliar a segurança de produtos originários da nossa biodiversidade." A estratégia da empresa é fixar esse diferencial lá fora.

Nos últimos anos, a Atina tem investido em pesquisa e desenvolvimento industrial de outros ativos naturais. Pelo menos quatro estão sendo produzidos a pedido da Natura, que também é a maior compradora nacional do Bisabolol da empresa: extrato de folha de aroeira, de guaçatonga e de semente de jatobá, além de manteiga de sapucainha.  "A ideia é avançar no mercado sendo parceiro desta e de outras empresas interessadas na exploração sustentável da nossa biodiversidade", diz Roxo.

 


Brasil Ozônio

Gás que despolui

Tecnologia multiplica aplicações do ozônio para descontaminação de produtos e do ambiente

 

Desenvolver inovação para a sustentabilidade pode ser muito bom como negócio. Melhor ainda é seguir nesta linha aproveitando uma matéria-prima encontrada em algo comum e abundante no planeta: o ar que respiramos. Foi a partir dele que o empresário Samy Menasce concebeu uma solução tecnológica inicialmente empregada para o tratamento mais eficiente de água, sendo hoje útil para inúmeras aplicações novas, requisitadas pelo mercado na busca por bem-estar, prevenção de doenças e redução de impactos ambientais.

A novidade em questão tem como base o ozônio, gás obtido do enriquecimento do oxigênio. Devido ao poder oxidante, trata-se do mais potente germicida conhecido no mundo, onde foi inicialmente utilizado com finalidade medicinal, para a cura de ferimentos durante a Segunda Guerra Mundial.

Com o desenvolvimento tecnológico das últimas décadas, ficou claro o potencial de variadas aplicações industriais, caso fosse possível chegar a altas concentrações. No primeiro momento, em razão do custo elevado, a solução se apresentava viável apenas para desinfecção de grandes volumes, o que justificou a sua expansão para tratamento de água em capitais europeias, como Paris, a partir da metade do século XX. Mais tarde, o ozônio passou a ser aplicado na indústria da celulose, em substituição ao cloro que sofria restrições de normas internacionais.

“O pulo do gato foi se aventurar em novos usos com equipamentos menores, portáteis e de baixo custo, usando como insumo o ar ambiente”, revela Samy, proprietário da BrasilOzônio. A empresa nasceu na incubadora denegócios tecnológicos da Universidade de São Paulo, tendo como diferencial o acesso a laboratórios de pesquisa e cérebros na área de química, eletrônica e outras especialidades para o desenvolvimento das inovações. A ênfase no capital humano foi estratégica para dar asas à visionária ideia que o empresário teve quando o pai se submeteu a um tratamento de saúde no hospital com máquina de oxigênio portátil. Ele se perguntava: “Por que não utilizá-la para fazer adaptações, produzir ozônio em pequena escala e expandir suas aplicações”.

Foi necessário achar um meio de aumentar a concentração de oxigênio, que passou de uma grama para 25 gramas por hora. Hoje a empresa está na quinta geração de equipamentos, possuindo mais de 3 mil sistemas modulares instalados para uma vasta gama de usos, que vão da desodorização de cigarro em hotéis com apartamentos de fumantes até a esterilização de materiais cirúrgicos e tratamento de efluentes industriais e poços artesianos. Isso sem falar das 300 piscinas tratadas pela empresa com oxônio em lugar do cloro – inclusive a da Casa da Dinda, em Brasília, a pedido do ex-presidente Lula, quando lá descansava nos finais de semana.

Aplicações ultramodernas estão no radar, como a descontaminação da mina de urânio das Indústrias Nucleares do Brasil (INB), em Poços de Caldas (MG), onde há um passivo ambiental de 2,5 trilhões de litros de efluentes e solos contendo metais pesados. ”Grande parte das atuais soluções à base de ozônio são exclusivamente brasileiras”, informa o empresário, habituado às exportações desde quando foi presidente de uma multinacional têxtil.

Após experiências de venda para Peru e Argentina, o plano atual é estabelecer parcerias comerciais para a expansão em outros mercados estrangeiros, inclusive o americano. O objetivo exigirá contínuo esforço na busca de equipamentos mais potentes, práticos e viáveis, inclusive com sistemas de comando à distância. Participar do ICV Global significou inputs de conhecimento, sobre tendências do mercado internacional e legislações, que tornaram mais claros os passos a seguir de agora em diante. Para Samy, “as possibilidades da tecnologia parecem não ter limites, ainda mais com a legitimidade e a credibilidade proporcionadas pela chancela da Apex-Brasil e GVces”.


CBPAK

 

Alternativa vegetal

Matéria-prima renovável e biodegradável valoriza produtos descartáveis 

A brasileiríssima mandioca, cultivada por indígenas desde tempos remotos, é um dos alimentos mais populares do País. A planta sempre esteve associada à cultura de subsistência, mas tende a ganhar um valor diferenciado ao permitir inúmeras aplicações industriais – da indústria alimentícia à química e farmacêutica. As mil e uma utilidades se devem à fécula (amido), utilizada pela empresa CBPAK, instalada no Rio de Janeiro, para a produção de embalagens biodegradáveis e compostáveis, que vem a ser a alternativa de baixo impacto ambiental para substituir as tradicionais embalagens plásticas de matéria-prima oriunda do petróleo.

De olho na nova possibilidade, o carioca Claudio Bastos investiu durante seis anos (2002 a 2007) no desenvolvimento da tecnologia para obter uma embalagem de espuma de amido de mandioca. As vendas tiveram início em 2007/08. Hoje, a empresa tem capacidade de produzir mensalmente 2 milhões de embalagens (copos, bandejas e outros utensílios).

          Entre os clientes, figuram empresas de grande porte, algumas multinacionais, interessadas em diminuir a geração de resíduos. Como é compostável, a embalagem de mandioca pode ir para o lixo orgânico junto com restos de alimentos e, assim, o insumo que um dia foi planta volta para a terra como adubo. Outra vantagem ambiental é a redução da pegada de carbono, uma vez que a origem vegetal é renovável e limpa, ao contrário da espuma convencional.

          "Desta forma, é possível diminuir o impacto ambiental de toda a cadeia produtiva", diz Bastos. Consciente do problema das embalagens no descarte, o engenheiro e ex-presidente de multinacional percebeu a oportunidade para  investir em seu próprio negócio. O desafio foi fazer com que o biopolímero, antes um tema restrito à pesquisa científica, adquirisse uma versão industrial.

          "Apresentei a novidade aos potenciais clientes só quando consegui obter as patentes registradas, equipe própria de pesquisa e desenvolvimento e maquinário capaz de obter o produto em escala industrial”,  conta o empresário. Em 2007, o BNDESPAR veio a participar no quadro societário com ações correspondentes a 25,6% do capital social da empresa, quando foi concedido um empréstimo para novos equipamentos. Em 2010, Bastos recomprou esta participação. As embalagens receberam ainda fomento da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

          A visão do empreendedor vai além do negócio propriamente dito. Abrange também a preservação dos recursos do planeta: "Quero deixar um legado para os meus filhos e netos e acredito que a restrição à embalagem é um item importante do ponto de vista ambiental", afirma. Apesar do preço, maior do que o dos utensílios de plástico, há a expectativa de um mercado potencial para o amido de mandioca em razão da mudança de comportamento do consumidor. "A exigência dos clientes fará com que as empresas repensem suas condutas e processos", diz o empresário.

          Com a tecnologia consolidada, confiança no produto e clientes, Bastos se sente confortável para ingressar no mercado externo. "O nosso produto deverá ser mais valorizado nos países mais desenvolvidos, onde as políticas públicas não permitem o uso exagerado da espuma convencional e buscam a solução correta da compostagem", avalia.

Pelo pequeno porte, a empresa não reúne condições de ter um departamento voltado para a exportação e por isso candidatou-se ao projeto ICV Global. Entender o que significa a internacionalização foi um dos objetivos. Foi uma rica troca de informações entre as empresas participantes, além, é claro, do conhecimento adquirido sobre exportação.

Na rodada de negócios promovida pelo projeto, uma distribuidora mostrou-se interessada em levar o produto para seus alvos principais, a Comunidade Europeia e mercado americano. Não sem razão. Em centros urbanos de países europeus e dos Estados Unidos já existe uma limitação de uso de copos plásticos e recipientes de comida para viagem de isopor, substituídos por compostáveis.


Coopnatural

 

O charme do algodão colorido

Apelo social e ambiental conquista espaços nas vitrines internacionais da moda

 

O showroom exibe para venda uma farta e criativa coleção de roupas e acessórios, redes de dormir e até brinquedos de pano. As vitrines daquele endereço de Campina Grande (PB) seriam como as de uma loja de moda qualquer não fosse um importante detalhe: os produtos lá expostos foram confeccionados com tecido de algodão que já nasce colorido, cultivado por pequenos produtores paraibanos como fonte de renda complementar às tradicionais atividades, como a roça de mandioca e a criação de gado e bode em meio à Caatinga.

Lá funciona a sede da Coopnatural, cooperativa que reúne artesãos, consultores técnicos e microempresários do setor têxtil e de confecções, com objetivo de ocupar espaços do comércio justo entre compradores que valorizam o produto orgânico, sem aditivos químicos e tingimentos. Isso sem falar da maior economia de água nos processos desde o cultivo da planta, que não exige irrigação.

“O algodão colorido tem o selo de ‘indicação geográfica’, para que se perpetue como identidade cultural do Estado, sendo a cooperativa a referência da produção”, ressalta a diretora, Maysa Gadelha. A entidade compra a pluma dos lavradores, manda para fiação e tecelagem (onde é feita a malha), elabora o design e depois comercializa o produto final confeccionado pelos cooperados.

A Paraíba já foi o maior produtor brasileiro do chamado “ouro branco”, ciclo econômico que entrou em declínio com a praga do bicudo. Uma nova

história para o algodão começou há 15 anos, quando a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) concluiu experimentos e forneceu 300 quilos de pluma colorida para fiação na Coteminas, indústria de grande porte localizada no município. Diante do sucesso, a cadeia produtiva começou a ser estruturada, partindo do zero. Abriam-se, assim, oportunidades de bons negócios para um produto nativo que existe há milênios na natureza, mas era desprezado como uma “anomalia”. O processamento industrial de seus fios nas tecelagens pode contaminar o maquinário com cores diferentes da branca, o que se constituía num importante impeditivo.

Desde o início, o negócio se propôs a vencer barreiras técnicas e voltou-se à exportação, integrado à carteira de serviços da Apex-Brasil, com foco no comércio justo e solidário, tendo o artesanato como principal produto. Com a crise internacional de 2008, as vendas lá fora caíram e a estratégia centrou-se no mercado interno. No entanto, mudanças no perfil do turista brasileiro fizeram a cooperativa planejar a retomada dos negócios no exterior, agora com e-commerce e ênfase no vestuário com atributo de sustentabilidade – o que motivou a sua participação nas oficinas do ICV Global.

“A partir da iniciativa, profissionalizamos nosso setor de exportação e fizemos adequações nas coleções de roupa, seguindo padrões exigidos no mundo”, conta Maysa. Estão nos planos a construção de uma nova sede para se juntar a cooperativas que trabalham outros produtos e o desenvolvimento de novas tonalidades para o algodão colorido naturalmente, hoje vendido nos tons “topázio”, “rubi”, “verde” e branco. Além disso, a expansão está vinculada à melhoria da qualidade de vida no campo: “produtores familiares começarão a plantar o algodão porque o caroço da planta é uma riquíssima fonte de proteína para compor a ração animal, principalmente em períodos de seca severa, como o atual, quando as pastagens estão esturricadas”.

Na comunidade de Catolé da Boa Vista, até a roça de palma, cactácea cultivada para alimentar o gado, murchou. Há três anos não chove o suficiente para a manutenção das vacas e para a produção do leite com o qual é produzido o queijo coalho, principal atividade econômica da região. Diante das novas perspectivas de exportação pela Coopnatural, o algodão colorido entrará em cena como uma renda extra – e também como uma solução para o gado não morrer de fome. “Sem chuva nada acontece por aqui, meu filho”, afirma José Pereira Irmão, o Zé Pequeno, presidente da cooperativa local de produtores de leite. 


Fazenda Retiro Santo Antônio

 

Cafezinho sem culpa

Questões ambientais e sociais agregam novos atrativos para a bebida

Cumprir o ritual do sagrado cafezinho sem que o hábito esteja associado à degradação ambiental e ao desrespeito às leis trabalhistas é hoje um desejo de consumo em mercados como o americano, o europeu e o japonês. Diante da tendência, adaptações na produção das fazendas e capricho na imagem do produto como aliado contra o desmatamento e o uso indiscriminado de agrotóxicos tornam-se elementos-chaves para o sucesso de um negócio tão arraigado na cultura brasileira.

A preocupação atual supera a tradicional e permanente busca da qualidade de grão e torra – requinte diretamente responsável pelo aroma e paladar tão apreciados mundo afora. E quem enxergar uma oportunidade nas novas exigências típicas do século XXI tem mais chances de ocupar espaços nobres no mercado, como ocorreu com o produtor paulistano Jefferson Adorno.

“Encontrei uma nova paixão”, afirma o fazendeiro, um engenheiro eletrônico que trocou a maior metrópole do País pela pacata rotina no campo. Tudo começou com um sequestro relâmpago que o fez refletir e mudar de vida. Após viagem para inspirações na cultura inca em Machu Picchu, no Peru, o projeto inicial foi cultivar shitake na fazenda da família, em Santo Antônio do Jardim (SP). Mas uma praga no cogumelo o empurrou para a produção de café, tradicional na propriedade, aproveitando que o pai se dizia cansado com as dificuldades do negócio. “Fiz cursos e aprendi segredos da cultura cafeeira com o antigo administrador da fazenda”, conta o empreendedor.

No começo, a saída para se diferenciar no mercado de commodities foi investir para carimbar o produto com o selo socioambiental Rainforest Alliance Certified, bastante reconhecida lá fora. “Achávamos que era coisa para gente grande, mas fomos em frente, unidos a outros produtores para tornar o processo viável”, diz Jefferson. Depois, foi obtida a certificação internacional UTZ, com ênfase na segurança alimentar e na rastreabilidade da origem do produto. Mas todo café era exportado em grupo por uma cooperativa da região.

Apesar dos esforços, o apelo da sustentabilidade ainda não gerava o valor esperado. Pagava-se entre 1% e 5% a mais por esse diferencial. Na prática, o principal ganho com os selos estava na gestão mais eficiente da propriedade. “Não tínhamos como encarar sozinhos a competição com os gigantes do setor”, explica Jefferson, que ao lado da mulher, a agrônoma Marianna Zibordi, pesquisou alternativas para a Fazenda Santo Antonio com seus 128 hectares.

Segundo o fazendeiro, o salto surgiu durante o ICV Global: “constatamos que, na venda, só mostrávamos a existência do selo de certificação e não os atributos a ele relacionados”. Ele desenhou uma “mandala do café sustentável” com todos os diferenciais socioambientais e depois a colocou em lugar de destaque no site da fazenda na internet. 

 Mas o principal feito estava por acontecer. Na rodada de negócios, um dos momentos mais esperados entre as diversas atividades do projeto, Jefferson apresentou amostras dos grãos verdes. E foi motivado pelo representante de uma das tradings participantes a produzir e exportar o café já torrado, principalmente para os Estados Unidos. Para isso foi preciso caminhar pelas próprias pernas em terreno desconhecido, fora da cooperativa; investir em equipamentos, concepção de marca e embalagem. O primeiro lote de 5 toneladas (100 sacas) de café torrado será exportado no segundo semestre de 2015, podendo ter como destino redes de fastfood que apostam no atrativo da sustentabilidade.

Em comparação ao grão verde, a rentabilidade do produto torrado será oito vezes superior, passando de R$ 100 para R$ 800 por saca. A maior renda será aplicada em máquinas para melhorar a separação do café com padrão de exportação, dobrando a quantidade a ser comercializada lá fora. “Até curso de inglês voltei a fazer como preparativo para os novos tempos”, revela o empreendedor. De resto, os atributos do produto lá cultivado com proteção de nascentes, inventário de espécies da fauna e flora, reposição de mata na beira dos rios e condições adequadas de trabalho, deverão falar mais alto. 

 



Kapeh

 

 

Muito além da xícara

As oportunidades para os cosméticos feitos com café sustentável

          A aposta no café fora da xícara, mais especificamente na pele e no cabelo, foi o caminho encontrado pela farmacêutica e bioquímica Vanessa Araújo e sua prima Denise Mesquita para crescer nos negócios. Em 2007, a dupla criou a empresa Kapeh (café na língua  maia), fabricante de cosméticos à base da espécie vegetal com a qual é feita uma das bebidas mais consumidas no mundo. Extrato, óleo e flor contêm propriedades úteis à beleza. Boa parte delas provém das qualidades do grão verde, pela ação antioxidante, anti-inflamatória, esfoliante, hidratante e estimuladora da queima de gordura. Além do mais, o peculiar aroma do café permite criar perfumes a partir do processo de infusão.

A ideia de aproveitar o fruto em cosméticos surgiu praticamente "em casa". A Kapeh fica em Três Pontas, sul de Minas, atualmente a maior região produtora de café do País. A matéria-prima tem origem da Fazenda Rancho Fundo, pertencente ao marido de Vanessa, cuja família se dedica à cafeicultura há várias gerações. Trata-se de grãos selecionados e certificados pela UTZ Certified, que garante a transparência do processo de produção.

          Para decolar no projeto, Vanessa começou a pesquisar e fez algumas parcerias com universidades para estudar as características e os benefícios do café. Foram necessários três anos de aprendizado até que se sentisse preparada para lançar a sua marca e começasse a fazer sucesso. Hoje, depois de vários prêmios, inclusive internacionais, a microempreendedora se sente preparada para dar um salto planejado no mercado externo, após as oficinas do ICV Global.

          "Já havíamos tido uma primeira experiência, exportando para a Holanda e Portugal", conta Vanessa, com planos de alcançar agora a América do Sul, Oriente Médio e Estados Unidos. "Pudemos aprimorar uma série de ferramentas voltadas para a valorização da sustentabilidade de nossos produtos e para o processo de exportação, o que nos ajudou a ter mais foco e obter melhores resultados."


Poli Óleos



Óleos que embelezam

Selos socioambientais garantem espaços no mercado internacional

Para a Poli Óleos Vegetais, pequena empresa de Vinhedo (SP) voltada ao fornecimento de ingredientes da biodiversidade brasileira para a indústria cosmética, a exportação não é uma novidade. Faz parte de sua história desde o início das atividades, em 2006 – e, antes disso, com a experiência da Ikove Organics, marca de cosméticos orgânicos adquirida em 2010.

"Nós sabíamos que, para expandir o negócio, teríamos que focar o mercado internacional, pois no Brasil ainda não há uma regulamentação oficial da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para produtos cosméticos orgânicos finais, como ocorre em outros países", conta Evelyn Steiner, diretora comercial. Hoje, 30% da matéria-prima e 65 a 70% dos produtos acabados são comercializados via distribuidora no Canadá, Estados Unidos, França e Emirados Árabes.

"A participação no ICV Global nos mostrou qual o caminho para estar presente nas prateleiras dos compradores mais exigentes, a ter mais atenção ao planejamento e aos canais regulatórios a serem acessados”, diz Evelyn . O suporte dos especialistas ajudou a entender melhor os pontos fortes e fracos da empresa e a planejar ações no mercado. "Foi valiosa a troca de experiências com empreendedores que têm produtos com os mesmos atributos, com possibilidade de beneficiar toda a cadeia de valor", avalia a empresária.

          A compra de óleos vegetais é efetivada junto a sete cooperativas extrativistas da Região Amazônica, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica e dos Pampas. A empresa processa frutos, sementes e extratos de casca de açaí, acerola, andiroba, buriti, copaíba, cupuaçu, guaraná, maracujá, murumuru, pracaxi, tucumã, entre outros, com selo socioambiental do Rainforest  Alliance.

          Toda a linha de cosméticos da Ikove é adequada às normas europeias e possui certificação do Instituto Biodinâmico (IBD), garantindo que estão livres de agrotóxicos e não contêm matéria-prima sintética ou produtos geneticamente modificados. O desafio tem sido considerar no marketing do produto esse acervo de valores socioambientais.

 

Safe Trace

 


Busca das origens

Rastrear práticas socioambientais no ciclo de vida dos produtos até as prateleiras torna-se um bom negócio

          O Filé de Salmão Congelado Garantia de Origem, comercializado pelo Carrefour no Brasil, tem origem chilena.  A rastreabilidade do produto na rede de supermercados no país é responsabilidade da Safe Trace, empresa que monitora o ciclo de vida de um grupo variado de produtos, que inclui carne, frutas e legumes, de sua produção até o consumo final. Por enquanto, essa é a única experiência internacional da companhia, mas a Safe Trace está com os olhos voltados para outros países.

"Nossa ideia é implantar o sistema e prestar serviços lá fora para garantir a transparência e confiabilidade de todos os elos da cadeia de produção", afirma Rodrigo Argueso, presidente da empresa, fundada em Itajubá (MG) em 2005, por dois jovens empreendedores, universitários à época, Vasco Varanda Picchi e Francisco Biazotto Neto.

O selo de origem dá ao consumidor condições de saber de onde vêm os alimentos, além de ter a certeza de que o produtor está atuando de acordo com as normas socioambientais e sanitárias que, dependendo do país, podem ser extremamente rigorosas. Segundo Argueso, por acompanhar o que é colocado no mercado, o sistema é vantajoso para a gestão do processo.

          O histórico de cada lote registrado e rastreado ajuda a identificar possíveis falhas na cadeia produtiva antes que se configure um dano maior pelo efeito cascata. “As informações servem para prevenir crises, aperfeiçoar a logística e desenvolver novos materiais", acrescenta Argueso.  "A sustentabilidade está no cerne do nosso trabalho e é preciso repassar para os clientes a noção de que esse custo vai trazer mais valor a seus produtos."

          O negócio da Safe Trace começou com a rastreabilidade da carne, um item importante na exportação brasileira. Os empreendedores tiveram a ideia de usar tecnologia de identificação por radiofrequência (RFID) para acompanhar o gado desde o seu nascimento. Para isso, os animais podem receber brincos. Ou cápsulas de cerâmica, equipadas com chips em seu interior, colocadas no estômago do bezerro. Munidos de uma antena, os técnicos acompanham o gado nas fazendas e as informações são cadastradas e ficam disponíveis na internet. 

          Tais informações são importantes para garantir que o consumidor não está comprando carne bovina proveniente de desmatamento ou de fazendas que utilizam trabalho escravo. "A credibilidade do trabalho é fundamental e por isso fizemos uma parceria com a consultoria PwC, que audita os processos da companhia", afirma Argueso. Depois do abate, a carne ganha uma etiqueta com o código de barras e um número que remete ao animal que originou o produto. O código QR (do inglês quick response) permite que o consumidor acesse informações ainda na gôndola pela tela de um celular com tecnologia Android ou iPhone.

          Sistema semelhante foi depois estendido para frutas, legumes, pescados e frangos na rede de supermercado Carrefour. E uma outra empresa que segue a mesma linha de trabalho, a Safe Trace Café, foi criada exclusivamente para o controle da rastreabilidade desse produto. A iniciativa é importante para a comprovação de qualidade e origem no caso de cooperativas que já comercializam no mercado internacional. A tecnologia, nesse caso, inclui etiquetas eletrônicas aplicadas às sacas ainda nas propriedades rurais.

O processo se estende para as etapas de beneficiamento, torra e moagem e as informações são acrescentadas ao banco de dados. Os armazéns, cooperativas e torrefadoras se beneficiam com informações sobre a procedência, formação de branding e comprovação de qualidade. Ao término do processamento, cada pacote recebe o selo de procedência com informações que podem ser acessadas pelo consumidor.

 

          Para a Safe Trace, a troca de experiências e o conhecimento adquirido no contato com os especialistas do GVces e da Apex-Brasil foram enriquecedores e a tendência é a empresa crescer tendo como pano de fundo as exigências socioambientais do mercado externo, com reflexos na criação de um ambiente de maior controle pelos produtores brasileiros.  


Sanex

 


Antibióticos sob controle

Insumos naturais na ração previnem doenças no gado, suínos e aves

          A proliferação de superbactérias resistentes a medicamentos é uma das principais ameaças à saúde humana na atualidade. Em grande parte, segundo especialistas da ONU, o risco provém do uso indiscriminado de antibióticos na ração animal como medida preventiva contra doenças que causam perdas da produção de carne, leite e ovos. “É crescente a restrição do mercado para o emprego desses insumos”, destaca Joel Germano Grzybowski, diretor comercial da Sanex, empresa paranaense que aposta em alternativas naturais para a saúde animal.

          São os chamados probióticos, produtos à base de gorduras especiais e ácidos orgânicos, capazes de atuar no controle da microbiota intestinal para que os animais se desenvolvam bem, com menos doenças causadas por bactérias. Esses insumos otimizam o uso de recursos naturais na produção da ração, melhor aproveitada no fornecimento de proteína.  “Os animais são produzidos em grandes concentrações de indivíduos para abastecimento das indústrias, favorecendo a contaminação, mas o uso de antibióticos para evitar prejuízos tem se mostrado perigoso para o próprio homem”, argumenta o diretor.

          Na Europa, a totalidade de produtores e indústrias que processam os animais para produção de carne já sofrem restrições nesse sentido. Nos EUA, há um acordo para que os antibióticos sejam controlados em dois anos. E a tendência é o Brasil, que exporta 50% da produção, deverá seguir o mesmo caminho, embora muitos países que compram o produto brasileiro ainda não tenham restrições. “O mercado internacional vê com bons olhos as novas alternativas e são poucas empresas que oferecem soluções validadas por estudos científicos”, afirma Joel.

 

          A Sanex iniciou neste ano as exportações, começando pelo Panamá, e agora busca parceiros para chegar a outras regiões, principalmente na América do Sul e Central. Ao participar do projeto ICV Global, a empresa aprimorou seu relatório de sustentabilidade, tomou conhecimento dos marcos regulatórios no exterior e se preparou para ocupar espaços. Joel não esconde: “Quem sabe já começamos a sonhar com o mercado americano”.

 


RedeResíduo


Tudo se transforma

Plataforma digital aproxima geradores e compradores de resíduos

          O que antes não tinha valor e era jogado fora sem destinação adequada é hoje um filão. Em busca de soluções para a enorme quantidade de lixo produzida no País, o engenheiro Isac Moises Wajc idealizou um negócio: a REDERESÍDUO, especializada no  serviço que conecta os diferentes elos da cadeia para a comercialização de materiais gerados na produção e consumo.

          A inovação surgiu em 2011, a partir de um projeto desenvolvido com o apoio do Cietec (Centro Incubador de Empresas Tecnológicas), da Universidade de São Paulo. Hoje associado a Francisco Biazini Filho, expert em Processamento de Dados, o empreendedor buscou aproximar pela internet grandes geradores de resíduos com recicladores, transportadores e empresas de tratamento e disposição final do que é descartado. 

A ideia é relativamente simples, mas engenhosa: os geradores cadastram no sistema os lotes de resíduos que querem vender, trocar, doar ou destinar para outro uso. Como uma bolsa de mercadores e serviços, o banco de dados é acessado por recicladores ou indústrias que procuram matéria-prima para seus processos. A rede é personalizada de modo que as próprias empresas geradoras podem comercializar o material e acompanhar a venda por georreferenciamento. A REDERESÍDUO administra a plataforma e oferece consultoria e treinamento para o cliente gerir as transações.

          "Sem o sistema, quem produz resíduos teria muita dificuldade para se aproximar dos compradores", diz Wajc. Além do ganho ambiental, obtém-se maior eficiência na gestão, redução de custos e receita adicional com a venda dos materiais. No Brasil, a empresa tem como clientes grandes construtoras, produtoras de eventos e prefeituras. Entre as construtoras, algumas possuem obras em outros países, o que levou a empresa a montar um modelo de negócio para exportação do serviço.

          A participação no ICV Global permitiu à REDERESÍDUO analisar os mercados latino-americanos e dos Estados Unidos. "A disposição dos resíduos é um problema mundial e nossos clientes em potencial estão por toda parte”, diz Wajc.